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sábado, 22 de dezembro de 2012

A implantação do marxismo-leninismo na Rússia: a construção do modelo soviético


 1917 o ano das Revoluções

A Rússia em 1917 estava em profunda crise política. Governado de forma autoritária pelo czar Nicolau II, o país sentia os efeitos de uma situação social deveras difícil e delicada.
   Descontentamento de largos sectores da população: camponeses, operários, burguesia e até a nobreza mais liberal. Motivos diversos e diferentes partidos e facções: miséria, concentração fundiária nas mãos da nobreza, salários baixos e miséria do proletariado, variadas razões para reclamar mudanças. Politicamente a oposição estava dividida entre:
  • facção dos socialistas revolucionários que reclamavam partilha de terras, apoiada pelos camponeses;
  • sociais democratas, divididos em bolcheviques mais extremistas (adeptos da via da ditadura do proletariado, da clandestinidade e acção directa) e mencheviques, moderados que consideravam necessária a existência de um partido de oposição no quadro do parlamentarismo;
  • constitucionais democratas adeptos do parlamentarismo ocidental.
Contexto da revolução: a situação de envolvimento da Rússia no conflito mundial levou a uma situação insustentável de crise social e económica agravada pelas perdas territoriais que puseram em causa a política de participação na guerra seguida pelo czar e seus apoiantes ocidentais. Fome, inflação, pobreza da maioria da população, derrotas militares e clima de descontentamento e desânimo.

Como diz Hannah Arendt: "... since the end of the First World War, we almost automatically expect that no government, and no state or form of government, will be strong enough to survive a defeat in war."
Hannah Arendt, On Revolution, Penguin Classics, 1991, pp. 5


  • Da Revolução de Fevereiro à Revolução de Outubro

A revolta das mulheres contra o aumento do preço do pão, acompanhada por revoltas e greves dos operários e dos soldados contra a guerra provocou a revolução de Fevereiro de 1917 na qual o Czar foi obrigado a renunciar ao poder deixando a Rússia nas mãos dos partidos politicamente mais activos. Ministros e generais foram presos.
   Os mencheviques e socialistas revolucionários asseguraram o controle do soviete de Petrogrado cujo chefe era o menchevique Tchkheidizé. Negociações entre os revolucionários e os constitucionais democratas conduziram ao poder o príncipe Lvov como chefe do governo provisório mas o clima conspirativo aumentou sob o impulso dos bolcheviques que conseguiram assegurar o controlo do soviete de Petrogrado no sentido de retirar o poder à burguesia e entregá-lo a um governo revolucionário.

Lvov e mais tarde Kerensky procuraram acalmar a situação e encaminhar o país no sentido do parlamentarismo ocidental mas o facto de não terem suspendido as acções militares e continuarem uma política pró-aliada fomentou um clima de revolta de rua numa estratégia revolucionária dirigida por Lenine entretanto regressado do exílio. Os sovietes, conselhos de operários, soldados e camponeses, controlados de início pelos mencheviques e socialistas revolucionários e mais tarde pelos bolcheviques formaram-se por toda a Rússia e tornaram-se a partir de Agosto de 1917, os pólos dinamizadores do movimento revolucionário.

As divergências entre bolcheviques, socialistas revolucionários e mencheviques levaram a um confronto de posições crescente ao longo desse ano de 1917. Lenine considerava que a fase burguesa não era necessária no caminho para atingir o socialismo. Nas teses de Abril, Lenine proclamava:
  • a recusa da guerra;
  • distribuição das terras, estatização dos bancos e fábricas;
  • entrega do poder aos sovietes.
O clima adensou-se. Os sovietes favoráveis aos bolcheviques foram perseguidos pelos governos provisórios. Os cossacos, entraram em Petrogrado e tentaram prender os bolcheviques mas estes defenderam a cidade e conseguiram manter o ímpeto revolucionário mesmo contra exércitos de cossacos. O governo provisório caiu e as populações tomaram progressivamente controlo dos campos e das fábricas. Os bolcheviques eram já maioritários nos sovietes de Petrogrado, Moscovo e Kiev. Os soldados desertaram da frente de combate permitindo às tropas alemãs e austríacas controlarem vastas regiões da Ucrânia e Rússia ocidental.

Em Outubro de 1917 o clima de sublevação transformou-se em movimento revolucionário orientado pelos sovietes bolcheviques e suas milícias, os Guardas Vermelhos, acabando por derrubar o governo provisório de Petrogrado. Na noite de 24 para 25 de Outubro (calendário Juliano) Petrogrado foi tomada pelos guardas vermelhos organizados por Trotsky, o couraçado Aurora disparou sobre o Palácio de Inverno sede do governo e o governo capitulou. Kerensky fugiu e os ministros foram presos.
   O II Congresso dos Sovietes entregou no mesmo dia o poder ao Conselho dos Comissários do Povo presidido por Lenine. Trotsky recebeu a pasta do exército e Estaline a pasta das nacionalidades.



  • Da democracia dos sovietes ao centralismo democrático


Revolução Russa Parte 1



Revolução Russa Parte 2




O governo revolucionário presidido por Lenine tomou controlo da situação e iniciou a publicação de decretos revolucionários que procuravam legalizar as reformas revolucionárias já iniciadas e instaurar a ditadura do proletariado:

  • Decreto sobre a paz - foi negociado o tratado de Brest Litovsk que permitiu um armistício antecipado com a Alemanha em condições muito desvantajosas pois a Rússia perdia grandes extensões de território. Esta paz separada provocou por sua vez o início do conflito com as ex-potências aliadas que invadiram os territórios da Rússia procurando combater a revolução e impedir a ocupação pelas tropas dos impérios centrais, dos territórios abandonados pelos Russos. Iniciou-se então a guerra civil.
  • Decreto sobre a terra - colectivização das terras e entrega das colheitas ao Estado. Fim da grande propriedade fundiária da Coroa, da Igreja e dos particulares, sem indemnizações.
  • Decreto sobre o controlo operário - colectivização das empresas, indústrias, minas, companhias de transportes, seguros, etc.
  • Decreto das nacionalidades - proclamação da Carta do Povo Russo que reconhecia o livre desenvolvimento das diferentes etnias e minorias nacionais, evitando a revolta e conflitualidades internas.
  • Decreto sobre a imprensa - liberdade de imprensa, reunião e associação.
  • 1ª Constituição Revolucionária - proclamando a Rússia como estado federal e multinacional, favorecendo o operariado e as suas reivindicações mas reservando o sufrágio directo e universal apenas para a constituição dos sovietes locais.
  • Reunião da 3ª Internacional comunista que propôs a união de todos os partidos comunistas numa única organização o Kominterncontrolado por Moscovo e que defendia o movimento internacionalista comunista numa via marxista - leninista. Este movimento acabou por afastar as facções socialistas democráticas discordantes da ditadura do proletariado. Formaram-se a partir de 1919 partidos comunistas por todo o mundo.


  • O Comunismo de Guerra face da ditadura do proletariado

Num quadro de ditadura do proletariado em que o Estado era controlado pelos proletários, era necessário assegurar a defesa da via comunista. Para isso Trotsky organizou o Exército Vermelho fazendo frente aos exércitos brancos dos países aliados e capitalistas, que invadiram a Rússia depois da Revolução. Emigrados e descontentes somaram-se aos exércitos brancos de invasores procurando aniquilar a revolução:
  • anarquistas ucranianos;
  • socialistas revolucionários;
  • dissidentes;
  • burgueses financeiros e homens de negócios;
  • Kulaks (proprietários de terras);
  • médios e pequenos camponeses descontentes.

A guerra provocou enormes sacrifícios  obrigando até 1921 a uma política fortemente centralizada e repressiva a nível interno, designada porComunismo de Guerra. Devido à guerra a constituição foi suspensa, a assembleia dos sovietes extinta bem como os partidos políticos e estabelecido o regime de partido único. Criada polícia política - a Tcheka - campos de concentração e censura que suspendeu o decreto sobre a imprensa.

Aspectos da ditadura do proletariado tiveram realização no período de guerra civil com o comunismo de guerra. Partindo da definição para Lenine, de proletariado (diferente da definição de Marx) o comunismo de guerra foi um período em que camponeses e operários, definidos como proletários, configuraram o regime comunista entregando ao Estado as colheitas.
   As medidas revolucionárias não foram aceites sem contestação. Piquetes de operários vigiavam a entrega de colheitas ao Estado. Nas cidades as fábricas tinham que trabalhar ao sábado e outros abusos dos direitos:
  • As empresas com mais de 5 operários foram nacionalizadas cabendo ao Estado a redistribuição dos recursos;
  • O trabalho tornou-se obrigatório dos 16 aos 50 anos;
  • foi prolongado o horário de trabalho e a indisciplina foi reprimida.

  • Centralismo democrático

Desde 1922, formou-se a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, estado federal e multiétnico reconhecido pela Carta dos Povos da Rússia.A formação de um estado tão heterogéneo a partir de um Império com as características do russo, reclamava uma organização fortemente centralizada. 

  • o povo votava nos seus representantes para os sovietes locais e regionais através de sufrágio universal;
  • os representantes dos sovietes tinham acesso ao congresso anual dos sovietes da Rússia;
  • O congresso dos sovietes designava um Comité Central Executivo (formado pelo Conselho de União e Conselho das Nacionalidades);
  • Os dois conselhos do Comité Central designavam os orgãos do poder ou governo: o Presidium e o Conselho de Comissários do Povo.

Entretanto a divulgação das teses de Lenine e da revolução por todo o mundo levaram à fundação da 3ª Internacional ou Komintern em Moscovo em 1919, organização chefiada por Zinoviev.


  • A Nova Política Económica (1921 a 1927)

Acabada a guerra foi necessário reconstruir a União, porque:
  • a população reduzira-se em 8%;
  • as cidades estavam despovoadas;
  • campos devastados e fábricas destruidas;
  • transportes parados;
  • baixa produção industrial;
  • baixa produção agrícola porque os camponeses apenas produziam o necessário para a sobrevivência das famílias;
  • produção de cereais desceu para metade da de 1913;
  • Minas de hulha estavam inutilizadas;
  • caminhos de ferro paralisados;
  • redução drástica da produção industrial.
Procurando retirar o país da ruína em que se encontrava, foi adoptada uma política de reconstrução designada por NEP, Nova Política Económica, a partir de 1921. A ideia principal era aumentar a produção. Foram tomadas medidas para:
  • recuperação da agricultura;
  • desenvolvimento e modernização da indústria;
  • reactivadas medidas de carácter capitalista para estimular a produção através da concorrência, no pequeno comércio, artesanato e agricultura;
  • suspensas as medidas de colectivização agrária;
  • suprimidas as requisições agrícolas substituídas por imposto em géneros e depois em dinheiro;
  • liberdade de comércio; 
  • desnacionalização das empresas industriais com menos de 20 operários;
  • Arrendamento de fábricas a sociedades e particulares;
  • Abertas concessões a empresas estrangeiras.
O Estado ao mesmo tempo tomou medidas para desenvolvimento das empresas na sua dependência:
  • contratou técnicos estrangeiros;
  • reintegrou técnicos do tempo do czar;
  • investiu em grandes fábricas criando grandes concentrações industriais;
  • desenvolveu cooperativas agrícolas;
  • promoveu o investimento estrangeiro;
  • instituíram-se prémios de produção;
  • construiram-se barragens e centrais hidroeléctricas.
As medidas tomadas fizeram de novo crescer uma classe média de intermediários, Kulaks (camponeses médios) e nepmen (comerciantes) que detinham riqueza cada vez maior gerando oposição e crítica dentro do partido.

A morte de Lenine em 1924 veio colocar em dúvida o regime que sofreu até 1927 os efeitos de uma feroz luta política pelo poder entre Estaline e Trotsky. Estaline mais feroz e determinado acabou por vencer esta contenda e Trotsky viu-se obrigado a fugir da U.R.S.S.


Questão para casa 


Perante as medidas tomadas após a Revolução Soviética, explica  a configuração ideológica do estado soviético pós-revolucionário. Elabora a tua resposta com referências e transcrições a algumas das medidas tomadas (doc. 15).

Resposta:

Após a revolução de Outubro, o Conselho dos Comissários do Povo procurou lançar as bases de um estado comunista de acordo com as teses propostas por Marx e reformuladas por Lenine. Com o decreto sobre a terra que abolia sem indemnização a grande propriedade entregando-a aos camponeses, o Estado retirava aos grandes proprietários o controle sobre a produção agrícola e a propriedade fundiária (artigo 1) "A propriedade dos proprietários fundiários sobre a terra é abolida imediatamente sem qualquer indemnização". Também o decreto sobre o controlo operário dava aos operários o controlo sobre as instalações industriais e sobre a produção fabril retirando esse controlo aos grandes industriais e empresas internacionais que explorava a economia russa. O decreto sobre a paz, retirando a Rússia da guerra procurava responder aos anseios das classes proletárias e dos soldados e marinheiros, principal sustentáculo do novo regime soviético: "A paz justa e democrática, desejada pela esmagadora maioria das classes trabalhadoras..."
   As medidas tomadas pretendiam atribuir às classes proletárias de que faziam parte não só operários mas também os camponeses, segundo Lenine, o controlo sobre o Estado saído da Revolução. O objectivo era retirar à burguesia o controlo sobre os meios de produção e desta forma avançar no sentido da instauração de uma ditadura do proletariado. O Estado soviético tornou-se o representante exclusivo e legítimo do proletariado que desta forma passou a deter o controlo de todo o estado russo. Toda a economia foi nacionalizada o que estava de acordo com as propostas de Marx e todos os sectores económicos da indústria e comércio passaram para o controlo dos operários e camponeses realizando-se assim a ditadura do proletariado.


1 comentário:

  1. ...passaram para o controle dos operarios e camponeses em teoria.. (de acordo com o projeto TEÓRICO "ensinado" por Karl marx e passado à prática por vladimir ilich / LENINE), porque na REALIDADE o que se passava era a generalidade de economia recém denominada SOVIÉTICA) ficar praticamente toda em poder da maquina centralizadora e EXTREMAMENTE restrita do Estado, na medida em que inclusive os referidos "proletários" (operarios e camponeses pobres) viam todo o seu esforço de trabalho ser direcionado e "consumido" pelo estado centralizador e decisor. Mesmo os camponeses anónimos que praticavam a ainda hoje denominada economia de subsistencia ficavam dependentes do estado para vender os seus produtos (mesmo no caso em que mal conseguiam produzir para o seu próprio consumo...) Além disso é necessario não esquecer que a Russia e os restantes territorios absorvidos pela revoluçao e que vieram a formar a URSS (uniao das republicas socialistas sovieticas) era um estado eminentemente de economia primaria e secundaria (mais primaria do que secundaria, visto que a agricultura se sobrepunha á industria no ratio das atividades economicas), sendo que o setor terciário (serviços) era praticamente inexistente. foi também esta uma das razoões que tornaram possivel a revolução e sobretudo a sua MANUTENÇÃO durante décadas.. nos dias atuais é quase impossivel encontrar a defenição CORRETA para a palavra "proletário" nas sociedades modernas, sendo que por vezes os "novos proletários" pertencem às classes médias mais ou menos endividadas, mais ou menos reféns das maquinas estatais (através dos diversos impostos, taxas e afins) ou "presa" fácil das grandes cadeias económicas privadas e GLOBAIS que operam sobretudo no setor terciario (comercio/serviços)... Ou seja: as MODERNAS sociedades desenvolvidas deixaram de ser refens das "antigas" elites absolutistas (nobrezas/clero/ou ditaduras republicanas diversas..) para se tornarem reféns da sua propria origem: a ALTA burguesia dirigente que elas proprias ajudaram a criar, que elas proprias ajudaram a crescer e enriquecer... globalmente ! temos exemplo claríssimo disso mesmo, atualmente em todo o planeta através da globalização e concentração de poder nos mercados FINANCEIROS sobretudo.. é caso para dizer que o Capitalismo deu a volta à situação...., e que o sistema economico equacionado por Karl Marx e tão bem descrito e formulado nos seus volumes de "O Capital" em conjunto com o seu amigo F. Engels, não passa agora de uma obra de consulta.... nostálgica..

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